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Entre o ser e o delírio
estudos euripidianos
Por LUCIANO HEIDRICH BISOL
Sinopsis
Os estudos aqui reunidos, escritos em momentos distintos de minha trajetória intelectual, convergem em torno de uma mesma inquietação, a saber, a necessidade de revisitar a tragédia grega como campo de tensões no qual se deixam entrever disputas de poder, ambivalências ontológicas e deslocamentos epistemológicos que continuam a interpelar o presente. Os textos nasceram sob circunstâncias diversas e o que os articula é a convicção de que a permanência dos clássicos depende de nossa disposição em submetê-los a perguntas que emergem de nosso próprio horizonte histórico, no interior do qual a crítica ao eurocentrismo, a investigação sobre as formas do ser e a atenção às configurações do sofrimento psíquico assumem centralidade incontornável. O primeiro estudo, "Ser e não ser em Alceste", originalmente apresentado como trabalho de conclusão de curso em Letras Português e Grego pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2012, concentra-se na análise estrutural da Alceste, também de Eurípides, a partir do paradoxo ontológico que se condensa na experiência limítrofe da personagem que é, simultaneamente, viva, morta e restituída à vida. Ao mapear as dualidades que organizam o drama — entre Apolo e Tânatos, hospitalidade e retribuição, juventude e velhice, presença e ausência — procuro demonstrar que o binômio ser e não ser, longe de se restringir ao célebre diálogo entre Héracles e Admeto, irradia-se por toda a tessitura da peça, estruturando-a como campo de forças no qual a identidade se define pela oscilação e pelo conflito. A leitura detida das quatorze partes do drama permite evidenciar que a ambiguidade não constitui mero ornamento retórico, mas princípio organizador de uma poética que inscreve no plano formal a própria instabilidade do existir.
Por fim, em "O estresse agudo de Orestes", estudo desenvolvido em 2020 no contexto das reflexões que acompanhavam minha pesquisa de doutorado, volto-me para a figura de Orestes tal como dramatizada na tradição trágica, tomando como foco os sintomas de desorganização psíquica que se seguem ao matricídio e que se manifestam em delírios, perseguições imaginárias e colapsos de linguagem. Ao articular categorias contemporâneas da psicopatologia com a representação antiga do furor e da perseguição pelas Erínias, argumento que a tragédia oferece uma gramática simbólica do trauma, na qual o sofrimento individual se inscreve em redes de culpa, vingança e justiça que excedem o sujeito e o atravessam. Interessa-me, nesse estudo, compreender de que modo a cena trágica dramatiza o estilhaçamento da interioridade, convertendo em espetáculo público aquilo que, sob outra chave histórica, reconheceríamos como experiência limite do eu. A reunião desses dois textos em um único volume obedece a um critério temático — a centralidade da obra euripidiana e do ciclo mítico que a circunda — e responde também a uma exigência teórica mais ampla, segundo a qual o retorno aos clássicos só se legitima quando se deixa contaminar pelas urgências do presente, aceitando que toda leitura é situada e que toda filologia, quando praticada com rigor, carrega em si uma dimensão crítica. Ao oferecer estas páginas ao leitor pretendo convidá-lo a compartilhar um percurso no qual a tragédia antiga se revela espaço privilegiado para pensar a identidade, o poder e a vulnerabilidade humana, desde que estejamos dispostos a escutá-la a partir de nossas próprias fraturas históricas.
Por fim, em "O estresse agudo de Orestes", estudo desenvolvido em 2020 no contexto das reflexões que acompanhavam minha pesquisa de doutorado, volto-me para a figura de Orestes tal como dramatizada na tradição trágica, tomando como foco os sintomas de desorganização psíquica que se seguem ao matricídio e que se manifestam em delírios, perseguições imaginárias e colapsos de linguagem. Ao articular categorias contemporâneas da psicopatologia com a representação antiga do furor e da perseguição pelas Erínias, argumento que a tragédia oferece uma gramática simbólica do trauma, na qual o sofrimento individual se inscreve em redes de culpa, vingança e justiça que excedem o sujeito e o atravessam. Interessa-me, nesse estudo, compreender de que modo a cena trágica dramatiza o estilhaçamento da interioridade, convertendo em espetáculo público aquilo que, sob outra chave histórica, reconheceríamos como experiência limite do eu. A reunião desses dois textos em um único volume obedece a um critério temático — a centralidade da obra euripidiana e do ciclo mítico que a circunda — e responde também a uma exigência teórica mais ampla, segundo a qual o retorno aos clássicos só se legitima quando se deixa contaminar pelas urgências do presente, aceitando que toda leitura é situada e que toda filologia, quando praticada com rigor, carrega em si uma dimensão crítica. Ao oferecer estas páginas ao leitor pretendo convidá-lo a compartilhar um percurso no qual a tragédia antiga se revela espaço privilegiado para pensar a identidade, o poder e a vulnerabilidade humana, desde que estejamos dispostos a escutá-la a partir de nossas próprias fraturas históricas.
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Ficha Técnica
Editorial: Namíbia Editora
ISBN: 9786583005908
Idioma: Portugués
Fecha de lanzamiento: 11/06/2026
Especificaciones del producto
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